vinteesete

27 dezembro, 2007

vinte e sete de dezembro de dois mil e sete - tabuazeiro

Nietzsche andava sujo e absorto por uma rua suja e fétida dentro da minha cabeça. A paisagem dele, cheia de cheiro de morte e sol demais e pessoas desagradáveis, era um retrato romântico da rua em que eu andava. Mas, no entanto, era na rua dele que eu me concentrava. A cabeça dele estava imobilizada por um tipo de choque. Podia-se ver na cara dele o riso satânico que, às vezes, a inteligência nos estampa. Talvez, sonhando com o futuro, ele estivesse concentrado na rua em que eu andava. E ria do fato de que o homem nunca mudaria. Ria dos homens bêbados e preguiçosos nas sombras ao longo das calçadas, das mulheres tentando esconder seus defeitos ridículos, enfim, ria de tudo isso que nunca muda e vai levando o mundo vida afora. O sol me deixava tonto. Como quem se deixa a estragos em via pública e segue calmo e certo mesmo assim, me senti meio Jesus. E pensando Nele vagando também em minha cabeça e se deparando com Nietzsche e gostando dele e discutindo com ele e rindo com ele, vi meu rosto esboçando aquele mesmo risinho de maldade rua afora.

07 dezembro, 2007

seis de dezembro de dois mil e sete - tabuazeiro - vitória

A letargia na hora do pasto. Os olhos postos no teto do céu infinito e sonhado em todas as horas de trabalho insípido. A boca morta e esquecida e a cabeça gritando absurdos: e se a morte for a mesma terra dos sonhos e pesadelos? E se o corpo antes de se extinguir não me deixar em paz? E se Deus ri de tudo porque a dor é só um conceito do corpo? E se eu for só corpo? E se Deus for só conceito? A cabeça gritando, mergulha no infinito do céu e vai. O vento passa, depois para. As nuvens vêm e passam. O céu fica lá. A cabeça no céu também. A cabeça como um oceano vai dragando as idéias para um profundo e inalcançável abismo e as respostas são atiradas contra a calmaria do céu que nada diz. Uma memória foge e vem à tona: eu criança me perguntando por Deus e um meteorito caindo em seguida; minha alegria, Deus havia falado comigo. E por esta lembrança outra pior me veio: o diabo também havia falado comigo, na forma de um cachorro. A cabeça enlouquecia com o medo de amar o desgosto, com o medo de perder a procura diante da certeza de Deus. E não só a cabeça como o corpo contorciam-se pelo prazer de estar entre todas essas coisas. Entre o infinito e a dor do tempo gasto e ido.